Análise · Partidos
Balança com o lado esquerdo em vermelho e o direito em azul
Câmara dos Deputados · 2019–2025Brasil

Esquerda ou direita? Onde cada partido está, pelo voto

Em vez de classificar os partidos pelo que dizem, medimos como suas bancadas votaram na Câmara em 19 votações nominais de 6 temas. Cada voto conta um ponto para a esquerda ou para a direita; os pontos viram uma nota por tema, e a média dos temas é a posição do partido, de −10 (esquerda) a +10 (direita). Todas as contas estão abertas abaixo.

O espectro

Cada ponto é um partido, na cor usada no restante do site. As faixas de fundo são os quatro grupos formados pelos próprios dados (partidos que votam de forma parecida nos seis temas; veja como). Toque em um partido para ver a conta dele.

Nota por tema

De −10 (a bancada inteira votou na posição de esquerda em todas as votações do tema) a +10 (todas na posição de direita). A posição final é a soma das notas dos temas dividida pelo número de temas. A última coluna mostra quanto a posição varia se retirarmos qualquer um dos temas da conta.

A conta de um partido, passo a passo

Escolha um partido para ver, votação por votação, quantos deputados dele votaram na posição de esquerda e na de direita, a nota de cada votação, a média de cada tema e a posição final.

As votações usadas

Escolhemos votações nominais do Plenário (e duas da CCJ, onde temas de costumes foram votados nominalmente) sobre temas em que esquerda e direita costumam se opor. Para cada uma, descrevemos o que estava em votação e mostramos, lado a lado, qual voto corresponde à posição de esquerda e qual à posição de direita, com o princípio que cada uma representa. O placar é o total de votos "Sim" e "Não" registrados.

Os quatro grupos

Para classificar sem escolher limites arbitrários (por exemplo, "direita a partir de +6"), deixamos os dados formarem os grupos: um algoritmo (k-médias) junta os partidos cujas seis notas por tema são mais parecidas entre si, sem olhar a posição final. Depois, nomeamos os grupos do mais à esquerda ao mais à direita. O gráfico mostra o perfil médio de cada grupo, tema a tema.

Por que quatro grupos?

Testamos de 1 a 6 grupos e medimos quanto os partidos ficam distantes do centro do próprio grupo (soma dos quadrados das distâncias). A distância cai muito até 4 grupos e, a partir daí, cada grupo a mais melhora pouco. É a chamada "regra do cotovelo":

E se o governo fosse outro?

No Brasil, muitos partidos votam com o governo do momento, seja ele qual for. Por isso usamos votações de dois governos de orientações opostas: Bolsonaro (2019–2022) e Lula (a partir da transição, em dezembro de 2022). O gráfico mostra a posição de cada partido calculada só com as votações de cada período. Nos extremos, a posição quase não muda; no centro, os partidos se aproximam do governo da vez.

só governo Bolsonarosó governo Lulatodas

Comparação com especialistas

Uma forma independente de checar a escala: em julho de 2018, 519 cientistas políticos da Associação Brasileira de Ciência Política deram notas de 0 (extrema esquerda) a 10 (extrema direita) a cada partido (Bolognesi, Ribeiro e Codato, Dados, 2023). Convertemos a nossa posição para a mesma escala de 0 a 10. Pontos sobre a diagonal indicam concordância.

Metodologia

  1. O que medimos: o comportamento das bancadas no voto, não o discurso nem o programa partidário. Programas são genéricos e raramente atualizados; votos nominais são públicos, datados e comparáveis entre partidos.
  2. Quais votações: 19 votações nominais da Câmara dos Deputados, de 2019 a 2025, em seis temas com divisão clássica entre esquerda e direita: economia e papel do Estado, trabalho e Previdência, impostos e gasto público, segurança pública e armas, meio ambiente e terra, e costumes. Usamos sempre a votação principal da matéria (texto-base ou 1º turno), não destaques ou requerimentos. Votações simbólicas, sem registro de cada voto, não entram (por isso ficaram de fora, por exemplo, o fim das "saidinhas" e a urgência do projeto sobre aborto de 2024).
  3. Qual voto é de esquerda e qual é de direita: para cada votação, definimos antes do cálculo qual voto (Sim ou Não) corresponde a cada posição, segundo a divisão clássica entre os dois campos em cada tema: Economia: mais papel do Estado × mais espaço para o mercado Trabalho e Previdência: mais garantias e benefícios × menos encargos e contenção de gastos Impostos e gasto: mais tributação dos mais ricos e mais gasto social × menos impostos e mais controle do gasto Segurança: controle de armas e menos endurecimento penal × mais acesso a armas e penas mais duras Meio ambiente e terra: regras ambientais e indígenas mais rígidas × mais flexibilidade para a produção Costumes: posições progressistas × posições conservadoras Em cada par, a primeira posição é a da esquerda e a segunda, a da direita. A lista de votações mostra, para cada uma, o voto e o princípio de cada lado. Os sinais são só uma convenção, igual à do eixo do gráfico: esquerda é negativo, direita é positivo, e nenhum lado é o "normal".
  4. Voto de cada deputado: contamos o voto nominal de cada deputado pelo partido em que ele estava no dia da votação. "Obstrução" conta como "Não" (é uma forma de se opor à aprovação); abstenções, ausências e o voto do presidente da sessão ("Artigo 17") não entram.
  5. Nota da votação: diferença entre os deputados do partido que votaram na posição de direita e os que votaram na de esquerda, dividida pelo total que votou: (direita − esquerda) ÷ total. Vai de −1 (todos na posição de esquerda) a +1 (todos na de direita); uma bancada dividida ao meio tem nota 0. Só calculamos a nota se pelo menos 3 deputados do partido votaram, para que um único parlamentar não defina a posição de uma legenda.
  6. Nota do tema: média das notas das votações do tema, multiplicada por 10 (de −10 a +10).
  7. Posição final: soma das notas dos temas dividida pelo número de temas com dados. Cada tema pesa igual, independentemente de quantas votações tem, para que nenhum assunto domine a conta. O partido precisa ter nota em pelo menos 4 dos 6 temas.
  8. Classificação em grupos: k-médias com 4 grupos sobre as seis notas por tema (explicado em Os quatro grupos). Partidos que não existem mais e não têm os seis temas (Patriota e PTB) são colocados no grupo mais próximo considerando os temas que têm.
  9. Fusões e mudanças de nome: siglas antigas foram atribuídas ao partido atual quando houve só mudança de nome ou incorporação (PR → PL, PRB → Republicanos, PPS → Cidadania, PHS → Podemos, Pros → Solidariedade). O União Brasil reúne os votos de DEM e PSL antes da fusão de 2022. O PRD reúne PTB e Patriota, que se fundiram em 2023; PTB, Patriota e PSC aparecem também separados, com os votos de quando existiam, porque concorreram em 2022 e aparecem nos painéis.

Limites, para ler com cuidado

  • Voto não é motivo. Um partido pode votar contra uma medida por discordar de um detalhe do texto. Exemplo: o Novo defende privatizações, mas sua bancada votou inteira contra a MP da Eletrobras e contra o Contrato Verde e Amarelo. A escala registra o voto, não a razão, e por isso a nota do Novo em economia e trabalho é menor do que se esperaria pelo discurso. O mesmo vale do outro lado: o PV, que faz parte da federação com o PT, votou a favor da Declaração de Liberdade Econômica e do novo marco do saneamento, e por isso tem nota positiva em economia.
  • Efeito governo. Partidos de centro tendem a votar com qualquer governo. Mitigamos isso usando votações de dois governos opostos, mas há mais votações do período Bolsonaro (12) que do período Lula (7), o que pode puxar esses partidos um pouco para a direita. O gráfico "E se o governo fosse outro?" mostra o tamanho desse efeito partido a partido.
  • A escolha das votações importa. Outras votações dariam números um pouco diferentes. Para medir essa sensibilidade, recalculamos a posição retirando um tema de cada vez (última coluna da tabela): a ordem dos partidos quase não muda.
  • Mudança de composição. Partidos mudam com o tempo: o PL, por exemplo, recebeu em 2022 muitos deputados que antes estavam no PSL. Como contamos cada deputado pelo partido do dia, o PL de 2019–2021 e o de 2022 em diante estão somados na mesma nota.
  • Votações na CCJ. Duas votações de costumes (vida desde a concepção e criminalização do porte de drogas) só foram nominais na Comissão de Constituição e Justiça, que tem cerca de 66 membros; ali, cada partido tem poucos deputados votando.
  • A escala é unidimensional. Resume tudo em um número de esquerda a direita. Um partido pode ser liberal na economia e conservador nos costumes, ou o contrário; a tabela por tema mostra essas diferenças.
  • Partidos sem dados suficientes:

Como reproduzir

Todos os votos vêm da API de dados abertos da Câmara dos Deputados (endereço /votacoes/{id}/votos, com o identificador de cada votação listado acima). A lista de votações, o lado considerado de direita e as regras de fusão são arquivos de texto editáveis; qualquer pessoa pode refazer a conta e chegar aos mesmos números. Calculado em .