Esquerda ou direita? Onde cada partido está, pelo voto
Em vez de classificar os partidos pelo que dizem, medimos como suas bancadas votaram na Câmara em 19 votações nominais de 6 temas. Cada voto conta um ponto para a esquerda ou para a direita; os pontos viram uma nota por tema, e a média dos temas é a posição do partido, de −10 (esquerda) a +10 (direita). Todas as contas estão abertas abaixo.
O espectro
Cada ponto é um partido, na cor usada no restante do site. As faixas de fundo são os quatro grupos formados pelos próprios dados (partidos que votam de forma parecida nos seis temas; veja como). Toque em um partido para ver a conta dele.
Nota por tema
De −10 (a bancada inteira votou na posição de esquerda em todas as votações do tema) a +10 (todas na posição de direita). A posição final é a soma das notas dos temas dividida pelo número de temas. A última coluna mostra quanto a posição varia se retirarmos qualquer um dos temas da conta.
A conta de um partido, passo a passo
Escolha um partido para ver, votação por votação, quantos deputados dele votaram na posição de esquerda e na de direita, a nota de cada votação, a média de cada tema e a posição final.
As votações usadas
Escolhemos votações nominais do Plenário (e duas da CCJ, onde temas de costumes foram votados nominalmente) sobre temas em que esquerda e direita costumam se opor. Para cada uma, descrevemos o que estava em votação e mostramos, lado a lado, qual voto corresponde à posição de esquerda e qual à posição de direita, com o princípio que cada uma representa. O placar é o total de votos "Sim" e "Não" registrados.
Os quatro grupos
Para classificar sem escolher limites arbitrários (por exemplo, "direita a partir de +6"), deixamos os dados formarem os grupos: um algoritmo (k-médias) junta os partidos cujas seis notas por tema são mais parecidas entre si, sem olhar a posição final. Depois, nomeamos os grupos do mais à esquerda ao mais à direita. O gráfico mostra o perfil médio de cada grupo, tema a tema.
Por que quatro grupos?
Testamos de 1 a 6 grupos e medimos quanto os partidos ficam distantes do centro do próprio grupo (soma dos quadrados das distâncias). A distância cai muito até 4 grupos e, a partir daí, cada grupo a mais melhora pouco. É a chamada "regra do cotovelo":
E se o governo fosse outro?
No Brasil, muitos partidos votam com o governo do momento, seja ele qual for. Por isso usamos votações de dois governos de orientações opostas: Bolsonaro (2019–2022) e Lula (a partir da transição, em dezembro de 2022). O gráfico mostra a posição de cada partido calculada só com as votações de cada período. Nos extremos, a posição quase não muda; no centro, os partidos se aproximam do governo da vez.
Comparação com especialistas
Uma forma independente de checar a escala: em julho de 2018, 519 cientistas políticos da Associação Brasileira de Ciência Política deram notas de 0 (extrema esquerda) a 10 (extrema direita) a cada partido (Bolognesi, Ribeiro e Codato, Dados, 2023). Convertemos a nossa posição para a mesma escala de 0 a 10. Pontos sobre a diagonal indicam concordância.
Metodologia
- O que medimos: o comportamento das bancadas no voto, não o discurso nem o programa partidário. Programas são genéricos e raramente atualizados; votos nominais são públicos, datados e comparáveis entre partidos.
- Quais votações: 19 votações nominais da Câmara dos Deputados, de 2019 a 2025, em seis temas com divisão clássica entre esquerda e direita: economia e papel do Estado, trabalho e Previdência, impostos e gasto público, segurança pública e armas, meio ambiente e terra, e costumes. Usamos sempre a votação principal da matéria (texto-base ou 1º turno), não destaques ou requerimentos. Votações simbólicas, sem registro de cada voto, não entram (por isso ficaram de fora, por exemplo, o fim das "saidinhas" e a urgência do projeto sobre aborto de 2024).
- Qual voto é de esquerda e qual é de direita: para cada votação, definimos antes do cálculo qual voto (Sim ou Não) corresponde a cada posição, segundo a divisão clássica entre os dois campos em cada tema: Economia: mais papel do Estado × mais espaço para o mercado Trabalho e Previdência: mais garantias e benefícios × menos encargos e contenção de gastos Impostos e gasto: mais tributação dos mais ricos e mais gasto social × menos impostos e mais controle do gasto Segurança: controle de armas e menos endurecimento penal × mais acesso a armas e penas mais duras Meio ambiente e terra: regras ambientais e indígenas mais rígidas × mais flexibilidade para a produção Costumes: posições progressistas × posições conservadoras Em cada par, a primeira posição é a da esquerda e a segunda, a da direita. A lista de votações mostra, para cada uma, o voto e o princípio de cada lado. Os sinais são só uma convenção, igual à do eixo do gráfico: esquerda é negativo, direita é positivo, e nenhum lado é o "normal".
- Voto de cada deputado: contamos o voto nominal de cada deputado pelo partido em que ele estava no dia da votação. "Obstrução" conta como "Não" (é uma forma de se opor à aprovação); abstenções, ausências e o voto do presidente da sessão ("Artigo 17") não entram.
- Nota da votação: diferença entre os deputados do partido que votaram na posição de direita e os que votaram na de esquerda, dividida pelo total que votou: (direita − esquerda) ÷ total. Vai de −1 (todos na posição de esquerda) a +1 (todos na de direita); uma bancada dividida ao meio tem nota 0. Só calculamos a nota se pelo menos 3 deputados do partido votaram, para que um único parlamentar não defina a posição de uma legenda.
- Nota do tema: média das notas das votações do tema, multiplicada por 10 (de −10 a +10).
- Posição final: soma das notas dos temas dividida pelo número de temas com dados. Cada tema pesa igual, independentemente de quantas votações tem, para que nenhum assunto domine a conta. O partido precisa ter nota em pelo menos 4 dos 6 temas.
- Classificação em grupos: k-médias com 4 grupos sobre as seis notas por tema (explicado em Os quatro grupos). Partidos que não existem mais e não têm os seis temas (Patriota e PTB) são colocados no grupo mais próximo considerando os temas que têm.
- Fusões e mudanças de nome: siglas antigas foram atribuídas ao partido atual quando houve só mudança de nome ou incorporação (PR → PL, PRB → Republicanos, PPS → Cidadania, PHS → Podemos, Pros → Solidariedade). O União Brasil reúne os votos de DEM e PSL antes da fusão de 2022. O PRD reúne PTB e Patriota, que se fundiram em 2023; PTB, Patriota e PSC aparecem também separados, com os votos de quando existiam, porque concorreram em 2022 e aparecem nos painéis.
Limites, para ler com cuidado
- Voto não é motivo. Um partido pode votar contra uma medida por discordar de um detalhe do texto. Exemplo: o Novo defende privatizações, mas sua bancada votou inteira contra a MP da Eletrobras e contra o Contrato Verde e Amarelo. A escala registra o voto, não a razão, e por isso a nota do Novo em economia e trabalho é menor do que se esperaria pelo discurso. O mesmo vale do outro lado: o PV, que faz parte da federação com o PT, votou a favor da Declaração de Liberdade Econômica e do novo marco do saneamento, e por isso tem nota positiva em economia.
- Efeito governo. Partidos de centro tendem a votar com qualquer governo. Mitigamos isso usando votações de dois governos opostos, mas há mais votações do período Bolsonaro (12) que do período Lula (7), o que pode puxar esses partidos um pouco para a direita. O gráfico "E se o governo fosse outro?" mostra o tamanho desse efeito partido a partido.
- A escolha das votações importa. Outras votações dariam números um pouco diferentes. Para medir essa sensibilidade, recalculamos a posição retirando um tema de cada vez (última coluna da tabela): a ordem dos partidos quase não muda.
- Mudança de composição. Partidos mudam com o tempo: o PL, por exemplo, recebeu em 2022 muitos deputados que antes estavam no PSL. Como contamos cada deputado pelo partido do dia, o PL de 2019–2021 e o de 2022 em diante estão somados na mesma nota.
- Votações na CCJ. Duas votações de costumes (vida desde a concepção e criminalização do porte de drogas) só foram nominais na Comissão de Constituição e Justiça, que tem cerca de 66 membros; ali, cada partido tem poucos deputados votando.
- A escala é unidimensional. Resume tudo em um número de esquerda a direita. Um partido pode ser liberal na economia e conservador nos costumes, ou o contrário; a tabela por tema mostra essas diferenças.
- Partidos sem dados suficientes:
Como reproduzir
Todos os votos vêm da API de dados abertos da Câmara dos Deputados
(endereço /votacoes/{id}/votos, com o identificador de cada votação listado acima). A lista de votações, o lado considerado de direita e as
regras de fusão são arquivos de texto editáveis; qualquer pessoa pode refazer a conta e chegar aos mesmos números. Calculado em .